Visita de Bolsonaro a Israel eleva debate sobre antissemitismo

Em artigo de opinião, o jornalista Hebert Neri fala sobre reações negativas da visita presidencial

Por Hebert Neri

Foto: Victor AlvarengaJornalista Hebert Neri fala sobre reações negativas à vista do presidente brasileiro a Israel e da necessidade de se debater sobre o antissemitismo
Jornalista Hebert Neri fala sobre reações negativas à vista do presidente brasileiro a Israel e da necessidade de se debater sobre o antissemitismo

A visita do presidente brasileiro a Israel que acontece no dia de hoje, 31 de março, é muito mais do que uma retribuição à visita do primeiro ministro Benjamin Netanyahu feita na ocasião da posse de Bolsonaro no Brasil, mas deve ser encarada como um aceno para um novo momento de posicionamento de política externa do Brasil, além de reacender a necessidade de um debate sobre o antissemitismo, que infelizmente tem estado presente em algumas posições de Relações Internacionais e comércio. 

É incrível como se acenderam declarações inflamadas contra Israel na internet, em especial com a possibilidade real da mudança da embaixada brasileira para Jerusalém. Vi muitas manifestações de ódio na internet acerca dessa visita, e percebi que não tinham a ver com concordar ou não com Bolsonaro, de aprovar o não sua ideologia, e sim de ter algo contra Israel. Existe uma questão dos que relutam por esta terra que na tradição judaica pertence a Israel desde os tempos de Avraham Avinu. É uma questão complexa, que transborda ânimos exaltados, mas que expõe os desafios da região, que é um barril de pólvora onde todos que cercam o Estado de Israel parecem querer o seu fim assim como de seus aliados, como os Estados Unidos

Concorde-se ou não, o presidente Bolsonaro claramente segue a agenda de Donald Trump nesse sentido, e a exemplo do ‘Commander-in-Chief’ norte-americano pretende mudar a embaixada para Jerusalém, reconhecendo a cidade como capital indivisível do Estado de Israel. 

Naturalmente com uma campanha repleta de declarações pró Israel, a maior parte da comunidade judaica ficou a favor do então candidato a presidência do Brasil, tanto no Brasil, em especial São Paulo, que concentra a maioria dos judeus, como em Israel. Lembro-me de como vi a comunidade reagir à candidatura dele, nas sinagogas e em especial no Shil da Vila, no Bom Retiro, com esperança. Não por ele ser o melhor e mais preparado candidato, ou porque concordava-se com tudo que ele diz ou faz, mas por ser o único realmente a favor de Israel, frente a 13 anos de aproximação do governo brasileiro com o Irã e até mesmo com o Hamas, que declaradamente despreza Israel. Era a única opção. Se realmente Bolsonaro mudar a embaixada para Jerusalém isso terá desdobramentos. Embora toda comunidade judaica apoie o gesto, não se sabe se o mandante brasileiro terá a ‘coragem' necessária para fazer tal qual o governo norte-americano, ainda mais frente a uma declaração de boicote comercial dos árabes.  No entanto, o que mais queremos é ter Jerusalém como capital, mas o governo precisa decidir se quer comprar essa briga ou não. 

O cenário é preocupante. Dadas as reações de diversos parceiros comerciais do Brasil e até mesmo de setores da sociedade civil a visita do presidente a Israel, é preciso falar sobre o antissemitismo porque ela expõe os que se opõe ao povo judeu, além de organizações como o Hamas que parece ter como único propósito acabar com Israel, ao aponta seus mísseis e projéteis a todo momento para Israel, no intuito de causar o terror, mas que ao receber um contra ataque ainda encontra quem os defenda. O que queremos não é a aniquilação dos inimigos de Israel, mas paz na região. 

A diáspora dispersou o povo judeu por todas as nações, que tiveram filhos e filhas por todo o mundo, tornando-se parte de todos os povos, mas nunca se deixou o desejo de retornar a Eretz Israel, até porque de fato o judeu nunca encontra plenamente um lar numa nação estrangeira que não aceita sua fé, costumes e tradições. Aqui em Portugal os judeus que não se converteram ao cristianismo foram expulsos por D. Manuel I há 522 anos, que assinou o édito de expulsão como uma condição imposta por Espanha para que casasse com D. Isabel, o que mostra que o antissemitismo não é algo novo. Tanto que hoje Portugal reconhece e concede cidadania aos descendentes dos sefarditas, como forma de reparação histórica. Um total de 2160 descendentes de judeus originários da Península Ibérica receberam nacionalidade portuguesa em 2018. Em um mundo de crescente intolerância, isto é uma grande conquista”. 

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